Andando de metrô sozinha aos 7 anos. O que podemos aprender com a independência das crianças japonesas?

16 de novembro de 2015 | Comente!

Uma reflexão sobre a autonomia que diferentes culturas concedem às crianças, e sobre até que ponto a estrutura das cidades considera a criança como cidadã, com direitos sobre o espaço público.

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O filme As crianças independentes do Japão, um curto documentário produzido pelo canal australiano SBS2, começa com uma criança recitando um provérbio japonês: “Envie a criança amada em uma jornada.” O significado dessa frase é explorado durante o documentário como revelador do modo como a cultura japonesa lida com suas crianças.

O documentário acompanha a rotina de duas famílias, uma japonesa e uma australiana, comparando as duas de modo a evidenciar os diferentes traços culturais na maneira como a criança é vista.

Noe é uma menina japonesa de 7 anos, e sua escola não fica próximo ao pequeno apartamento onde vive com seus pais, na cidade de Tóquio. Para chegar à escola, ela caminha até a estação de metrô, segue por algumas estações, desce e pega outro trem, de outra linha, até chegar à estação mais próxima à sua escola, tendo que caminhar mais um pouco até lá. Já faz isso há um ano.

Noe é, assim como outras crianças japonesas, muito incentivada por seus pais a trilhar este percurso diariamente e a realizar outras tarefas com autonomia, contando consigo mesma.

Em Sydney, somos apresentados à família Frazer. Emily, de 10 anos, vai para a escola no banco de trás do carro do pai. Ela nunca foi para a escola sozinha, mas expressa claramente vontade de fazer isso. “O que mais anseio pelo Ensino Médio é saber que vou poder voltar da escola sozinha”, a menina declara, para então ser amparada por uma estatística que o narrador do filme fornece: “a maioria das crianças deseja ir e voltar da escola sozinha, mas os pais não permitem, justificando esse comportamento com a preocupação pela segurança delas”.

Porém, o filme adverte que pensar essa autonomia em relação às crianças como resultado apenas de segurança na cidade mostra-se equivocado. A paranoia com segurança não necessariamente vem acompanhada de dados reais:  Sydney, por exemplo, tem baixos índices de criminalidade, mas o comportamento cultural do Ocidente em relação às crianças é o de acompanhá-las de perto até a adolescência.  Isso não significa, é claro, que este é um aspecto que possa ou deva ser ignorado.

Sabemos – e o filme deixa isso bem claro – que cada cultura recebe e forma crianças de diferentes maneiras. É evidente que a estrutura brasileira, tanto cultural quanto de segurança na cidade, não nos permite simplesmente copiar o comportamento japonês. Mas podemos usar esse exemplo, que pode ser muito impactante – ver crianças tão pequeninas andando sozinhas em uma cidade tão grande e populosa quanto Tóquio – como ponto de partida para reflexão: quanto confiamos nas crianças? Quanta autonomia concedemos a elas? Como a cidade em que vivemos leva mais ou menos as crianças em consideração enquanto cidadãs, que  circulam livremente no espaço urbano?

O desenho de uma cidade pode ser favorável ou não à circulação das crianças. Espaços que favorecem pedestres e não carros, escolas localizadas perto de praças públicas e locais movimentados e não distantes e isolados, e ainda próximas do local onde moram as crianças, são apenas alguns elementos de planejamento urbano que criam um ambiente mais favorável para a circulação autônoma das crianças.

Para que ações como estas sejam realizadas, é preciso haver uma mudança de atitude, por parte daqueles que planejam as cidades, mas também por parte dos adultos que criam as crianças. Que tal, da próxima vez que estiver andando com uma criança na rua, em vez de segurar a sua mão o tempo todo, soltar um pouquinho e observá-la em um pequeno momento de independência na cidade?

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